Post referente a aula do dia 24/05/2011
Acredito que um dos lugares que mais faz apologia ao sentimento de angústia e de dúvida é a psicologia e em especial quando estamos diante dos psicólogos fenomenológicos existencialistas. Infelizmente, essa não é uma vertente teórica muito contemplada no curso da PUC – Betim, digo isso no sentido de ter um maior número de disciplinas, porque no quesito profissionais ela está muito bem representada. Todavia, com o pouco que tive contato serviu para eu me apaixonar por essa perspectiva epistemológica.
Continuando... pensei na fenomenologia existencial por encontrar no decorrer das aulas de Institucional uma semelhança muito grande entre as idéias de Heidegger, e de outros autores que ajudam a sustentar essa corrente de pensamento, e dos pressupostos levantados pelos institucionalistas. Seja quando eles propõem a angústia da dúvida como algo positivo, ou quando a esquizoanálise fala do “não atrapalhar o devir”, lembrando em muito um dos princípios da fenomenologia, a concepção de Epokê, isto é, a suspensão de juízos permitindo que o fenômeno se revele tal como ele é. Contudo, acho graça em uma coisa: de três pessoas falando sobre esquizoanálise que vi serem confrontadas com a idéia de que esse saber tem muito da fenomenologia existencial, todas elas se mostraram hostis e não concordaram. Mas que Heidegger falou primeiro, ele falou... ^^
E em clima de dúvida, angústia, certeza da finitude e da fragilidade do ser, revirei tudo no meu quarto atrás de um texto passado pela incrível prof. Lizandre e que vale muito ser lido.
Pensar a Vida, Saltar o abismo
Todos nós já sentimos essa dor de ser e, vez ou outra, com uma intensidade quase insuportável. Sentimo-nos estrangeiros em nossa própria vida. Sentimo-nos em dívida com nós mesmos. Um vazio nos invade. Nossa existência perdeu o significado. Não sabemos mais quem somos nem quem podemos ser. Queremos que alguém nos explique o viver! Que alguém nos explique quem somos e a que viemos!...
A dor de ser faz parte da nossa natureza. Não agüentarmos apenas ser, temos que ser nós mesmos . Não queremos repetir ninguém nem que ninguém nos copie. Também não nos basta que os outros aprovem nossa vida. É preciso que ela faça sentido para nós mesmos.
Essa dor sentida é, no entanto, apenas uma face da moeda, a outra, que mal reparamos, é a de uma bem-aventurança. Se podemos sentir a dor de nos ter perdido de nós mesmos, é porque temos o poder de nos encontrar novamente.
O que nos angustia e deixa aturdidos nessa história, é que para esse indivíduo exclusivo que somos e para o sentido pessoal de nossas vidas, não há nenhuma referência possível.. Os modelos culturais e os outros com quem convivemos podem nos inspirar, mas apenas isto. O resto é conosco. Temos que ser ao mesmo tempo os autores, os atores e os juizes de nosso próprio existir.
A certeza de que morreremos, mas sem saber quando, é o que muitas vezes nos empurra para essa tarefa sem referências de tomarmos nas mãos o nosso destino, a nossa história exclusiva e de emprestarmos para a vida a nossa própria cara. Temos pouco tempo.
E tudo é risco, é aposta. É passo sobre o abismo. Que exige coragem. E preparação.
Esta preparação é tarefa do pensar, da reflexão. O que a filosofia pode fazer conosco é isto: ensinar-nos a pensar. E conhecer esse “segredo” já é meio caminho andado.
Pensar, ou refletir, não é perder-se em elucubrações, análises, cálculos, infindáveis relações. Ao contrário, é estancar esse tráfego incessante de palavras e idéias em que nos atolamos e penetrar naquilo que ainda é invisível e desconhecido para nós, trazendo-o para a luz. Pensar começa por parar (o tráfego de idéias) para pensar .
Quando paramos para pensar, podemos nos observar e flagrar quais medos, fantasias, crenças, preconceitos nos têm influenciado. Flagrando-os, nós interrompemos o seu fluxo e o domínio que vinham tendo sobre nós. Eles emudecem. Silenciam. E nós mesmos entramos em silêncio.
E é só quando ficamos silenciosos que começamos a nos ouvir. A ouvir a voz que vem lá das nossas profundezas, sábia, revelando o sentido de nossa vida, o caminho, o gesto necessário. Enchendo-nos de coragem para o passo sobre o abismo. Transformando a dor em bem-aventurança, em vontade, em decisão. Descobrindo nosso próprio poder. Preparando-nos para ir ao encalço de ser quem só nós mesmos podemos ser e de viver como só nós mesmos podemos viver
Dulce Critelli
Texto publicado na coluna “Outras Idéias”, Folha Equilíbrio,
“Folha de São Paulo”, de 10 de outubro de 2002
“Folha de São Paulo”, de 10 de outubro de 2002
Neste dia me lembrei ainda de uma música, pertencente aquele que considero o maior músico da última década, que de forma versátil e criativa consegue fazer arte em meio a chatice e ao apelo visual glamuroso do pop norte americano.
John Mayer em seu álbum Continuum [2006] gravou uma música chamada Belief (convicção), e quando em sala todos diziam do medo em sair da faculdade e não saber o que fazer, de ter que responder de um lugar (profissão) marcado por uma representação social e de demais dúvidas que circundam nossas vidas, me agarrei na idéia que o citado músico esbraveja no refrão:
♫ “Nós nunca ganharemos do mundo
Nós nunca pararemos a guerra
Nós nunca superaremos isso
Se é pela convicção que estamos lutando” ♫
Exato, o que move o mundo são as dúvidas e não as certezas, em verdade, vemos as convicções provocarem as tragédias (vide o caso dos fundamentalistas, sejam eles religiosos, políticos ou cientistas). A música ainda nós diz mais:
♫ “A convicção é uma bela armadura
Mas ataca a mais pesada espada
É como socar debaixo d'água
Você nunca consegue bater em quem você está tentando [...]
Ah, todos acreditam
Em como eles acham que deveria ser
Ah, todos acreditam
E eles não vão com calma” ♫
E ao som desta música, diminuo meu desespero em ser, em fazer...
Na mesma proposta...
John Mayer – Belief
Poema: E agora José - [Carlos Drummond
Compilação de textos da Dulce Critelli
[Título do post oriundo da lembrança de uma aula do 4º período. Não sei a quem a frase pertence, mas a vejo sendo utilizada em textos que discutem a religião pelo viés fenomenológico existencial, sendo o termo “cavaleiro da fé” atribuído a Kierkegaard]
Post feito ao som de Beirut - Gulag Orkestar [2006]
Uau!! cliquei no link no seu nick e vim parar aqui... um blog feito pela Kel! hehehe
ResponderExcluirMuito massa os temas, mesmo eu não estando presente nas aulas, gostei muito das coisas que vc escreveu e principalmente das sugestões do cinema... sagaz!!
Eu li aqui as suas criticas sobre este modelo de ciencia impessoal e me lembrei de uma das ultimas coisas que eu li quando ainda fazia psicologia que eram os livros sobre o paradigma sistemico, não da psicologia sistemica, mas sim da epistemologia, da forma de pensar o mundo; e essa era uma de suas propostas: criar uma ciencia que fosse mais pessoal, que contivesse o sujeito em suas afirmações visto que em um fenomeno da ciencia sempre há um sujeito que observa e diz. Afinal nenhum fenomeno do mundo "existe realmente" se não pela mediação de alguem que consegue distingui-lo e destacalo do restante. haiuhaiua não me sinto mais com "autoridade" para filosofar ou discutir essas coisas, muito tempo longe...
Mas... mais uma vez: Parabens pelo blog, vou estar sempre por aqui lendo seus devaneios.
bjo!
Que bom te ver por aqui Hudson!
ResponderExcluirFiz o blog para a aula de psi institucional, então por enquanto ele vai girar em torno das aulas, afinal a prof. ainda vai avaliar o trabalho. Porém, depois pretendo continuar nessa mesma "vibe".
E é engraçdo q vc tenha passado por aqui e falado justamente neste post. Quando o escrevi me lembrei de você e de como gostava de descontruir a concepção substancialista de ciência.
Viu.. vc ainda continua no curso... rsrsrs
Abraços e continua dando suas opuniões, elas são sempre interessantes.
Muito interessante fazer um blog como trabalho acadêmico, além de tornar a atividade mais prazerosa, ainda o torna acessível a outras pessoas.
ResponderExcluirParabéns e não deixe de postar após o termino do trabalho.
Beijos!